Brasília, quinta-feira, 28 de março de 2002
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O dono da estrela

Funcionário do Banco Central e astrônomo diletante, Paulo Cacella descobriu uma supernova — feito raro para quem é dono de um modesto telescópio, mas de insistente curiosidade científica

Conceição Freitas
Da equipe do Correio

/// Imagem manipulada no computador/// Arte: Ricardo Lima / Foto: Adauto Cruz

 
Logo que Paulo Cacella chegou ao trabalho, na manhã de 11 de março, um de seus colegas apressou-se em dizer: ‘‘O improvável aconteceu’’. Havia um tom jocoso no comentário. Há tempos que dez colegas do Departamento de Operações das Reservas Internacionais do Banco Central fazem um bolão semanal da MegaSena e Cacella mantém-se impertubavelmente fora do jogo. Naquele fim de semana, a turma tinha sido premiada, R$ 1 mil para cada um. Era a hora de tripudiar com o colega.

  ‘‘Aconteceu e foi muito mais improvável do que você imagina’’, respondeu Cacella. O que ele havia conseguido na madrugada da sexta-feira anterior 8 de março foi tão espetacular quanto ganhar três vezes seguidas na MegaSena. O engenheiro eletricista de 40 anos, astrônomo amador desde os 9, tinha descoberto uma supernova — estrela em explosão, que expele uma nuvem brilhante e de muito interesse para os astrônomos por conter informações importantes sobre a evolução do Universo.

  Das duas mil supernovas observadas pelos humanos, a maioria foi descoberta por equipes profissionais e telescópios sofisticados, o que torna mais surpreendente o feito do carioca Paulo Cacella, ex-estudante do Colégio Militar, em Brasília desde 1981. Com um telescópio de US$ 1,5 mil, do tamanho de uma geladeira, (os equipamentos profissionais podem ter até 50 metros de altura e custam dezenas de milhões de dólares), ele localizou e fotografou a supernova que recebeu o nome de 2002bo e fica na galáxia NGC 3190, na direção da constelação de Leão, a 60 milhões de anos-luz da Via Láctea — o que, levando-se em conta as grandezas do universo, não chega a ser uma distância grande.

  Na noite de 8 de março, pouco depois das 21h, Cacella cansou-se da tevê e resolveu montar o telescópio no terraço de sua casa, no alto de um morro que acompanha o Ribeirão do Gama, num lote fracionado do Park Way, área muito pouco habitada. ‘‘Estava um tanto contemplativo, como gosto de ficar quando estou observando o céu’’, lembra-se. Com internet de rádio, seu computador é ligado ao mesmo tempo ao telescópio e ao resto do mundo. Como se aquela fosse mais uma noite trivial de visita ao maior dos mistérios, Cacella procurou pela distante galáxia UGC 5499 atrás de uma supernova já descoberta. ‘‘Posicionei o telescópio e peguei as imagens nem um pouco excitantes, já que se tratava de uma galáxia remota.’’

  Depois, Cacella sentou-se e observou o céu a olho nu. A constelação de Órion se punha a oeste e Virgo nascia a leste. Ao norte, a Ursa maior, e ao sul, a constelação da Carina. Havia tempos, o engenheiro-astrônomo procurava no céu alguma imagem que superasse a do quasar PKS2000-330 que fotografara meses antes. Lembrou-se então de uma galáxia magnífica, a NGC 3190, uma das primeiras a fotografar quando comprou o CCD (aparelho que captura imagens do computador). Logo no primeiro registro, notou uma pequena estrela próxima ao núcleo da galáxia.

  ‘‘É uma supernova’’, disse a si mesmo. A posição era suspeita, mas era preciso conferir todas as demais hipóteses. Podia ser um asteróide, uma estrela da Via Láctea superposta na imagem ou mesmo um defeito no equipamento. ‘‘Astronomia, sonhos, desejos, imagens, estética, prazer e música são uma droga mais poderosa que qualquer química inventada pelo homem’’, diz Cacella para descrever o que lhe ocorreu no instante em que imaginou que estava sendo testemunha da explosão de uma estrela.

  O que Cacella não sabia era que aquela era uma supernova desconhecida e que era o primeiro astrônomo a vê-la. Eram 23h00 quando entrou na internet e comunicou o que vira à União Astronômica Internacional (Internacional Astronomical Union, IAU), que imediatamente pediu informações complementares. Duas horas depois, o Observatório de Lick, na Califórnia, — o mais bem posicionado para ver a supernova — confirmava a descoberta. No dia seguinte, à tarde, a IAU expediu a circular nº 7847 confirmando o feito do brasileiro.

‘‘Uma supernova é uma explosão sem precedentes que ilumina toda uma galáxia e cuja luz percorre os mais distantes confins do universo. Essas estrelas, em seu leito de morte, além de serem faróis que iluminam o nosso conhecimento do Cosmos, também são matéria-prima que criará novos mundos, talvez novas civilizações como a nossa.’’

Paulo Cacella


Serviço

Informações e fotos da supernova podem ser vistas no http://www.astrosurf.com/cacella

O princípio do prazer

  Visto de camiseta meio amarrotada, calça jeans batida, botas desgastadas e cabelos desalinhados, Paulo Cacella parece ter bem menos que seus 40 anos. Lembra um jovem cientista prestes a descobrir novas leis do universo. Sua lista de interesses pelo conhecimento científico prolonga-se desde a matemática e a física à psicologia, arqueologia e história. ‘‘Passo 95% do meu tempo fazendo coisas que gosto’’. E ele gosta de ler (15 livros de cada vez, espalhados pela casa), viajar, comer, olhar o universo, trabalhar na aplicação de reservas internacionais do Banco Central. Cacella diz que não na sua vida não há divisão entre prazer e dever. Tem a sorte de fazer o que gosta. Entre seus pares, Cacella é considerado um cara que passa noites em claro à procura de soluções para os problemas de trabalho, que lê montanhas de texto antes de apresentar uma proposta. Não é nada disso, diz ele. ‘‘Apenas sei distinguir o que é importante do que não é. Não perco tempo lendo calhamaços. Dou uma olhada e vou direto na parte que me interessa. Olho o problema de forma holística, de fora. Não entro no problema. Entrar no problema é a forma de não resolvê-lo’’. Também não se perde nos detalhes: ‘‘Só vou aos detalhes quando eles são importantes’’. É assim que Cacella vai escolhendo o que quer, sem perder nenhum segundo com o que não quer. Dia desses, dois dos assuntos mais importantes do noticiário era a prisão do médico pedófilo e a pressão dos Estados Unidos para retirar do cargo o diretor-geral da Organização para Proscrição de Armas Químicas, o brasileiro José Maurício Bustani. ‘‘Não quero saber de médico pedófilo. Não li nada, não me interessa, não sou pedófilo nem quero ser.’’ Porém, as tentativas de impedir a atuação de Bustani mereceram a atenção de Cacella. ‘‘Li tudo sobre isso’’. Casado com uma moça que preza a privacidade e não se deixa aparecer na imprensa, sem filhos, o astrônomo da supernova 2002bo não acredita em Deus nem ‘‘em nenhuma crença religiosa antropocêntrica’’. Ou seja, para Cacella, o homem não é o centro do universo, como crêem vastas populações do planeta. ‘‘A atmosfera é tão importante quanto homem. Um asteróide pode passar aqui e acabar com tudo.’’ Antes que isso venha a acontecer, Paulo Cacella segue sua bússola na trilha do conhecimento científico cultuado com prazer. Há três anos, percorreu 17 mil quilômetros em viagem ao Chile e Argentina, em seu Fiorino 98, o mesmo que o leva ao Banco Central. Sabia de tudo o que iria encontrar lá porque é sedento (também) por informações de viagem. ‘‘Estou sempre preparado para uma largada de cem metros rasos’’, diz ele, no seu raciocínio tão rápido que quase deixa as palavras para trás.
 
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