Entrevista: Paulo Cacella - e sua Supernova
Por Adriano Aubert S. Barros


        P aulo Cacella é engenheiro eletricista, mora em Brasília e trabalha no Banco Central. Tem muitos hobbies: Astronomia, ler, viajar, Filosofia, história, matemática, física etc. Este ano observando a galáxia NGC 3190 na constelação do Leão, Paulo descobriu uma supernova, a explosão de uma estrela e tornou-se o primeiro astronomo amador brasileiro a relizar tal feito.



        Como surgiu seu interesse pela astronomia?

        Desde que me lembro por gente. Está intimamente ligado a busca pela origem e destino do universo.

         Você participa de algum grupo em sua cidade?

        Atualmente não. Mas tenho muitos contatos com o clube de astronomia de Brasilia.

        Quais as atividades que o grupo de Brasília desenvolve?

        Estão instalando um observatório com um telescópio de 11" da Celestron. Não conheço mais detalhes. O Antonio Coelho pode ser mais objetivo.

        Sabe-se que há na astronomia amadora, pessoas que se interessam por observar eventualmente sem nenhuma programação (amadores da Astronomia) e outras que se dedicam com mais planejamento (astrônomos amadores). Como você se classificaria no grupo do Amadores da Astronomia ou dos Astrônomos amadores? Por que você preferiu este caminho na astronomia?

        Sem duvida eu observo sem nenhuma programação. Nunca houve qualquer pretensão de fazer um trabalho científico. Detesto obrigações d qualquer tipo. Muito menos voluntariamente. Eu preferi esse caminho porque é o único que nos leva a, de fato, introjetarmo-nos na música das esferas. É como escutar música. As vezes passo a semana inteira apreciando, outras fico sem observar outros tantos. Se gostasse de fazer esse trabalho metódico teria sido astrônomo. Isso é uma discussão longa em que eu penso muito diferente da maioria dos colegas. Isso não quer dizer que eu não estude o assunto ou ainda que não conseguiria realizar algo de útil. Para registrar a descoberta na IAU tive que fazer a fotometria e astrometria da supernova em uma hora. Para se fazer isso você tem que ter os recursos técnicos (equipamentos, programas) e o conhecimento para usá-los. Isso foi meia-noite e eu não tinha contacto com nenhuma pessoa para qualquer orientação.

        Quais os requisitos principais para se tornar um astrônomo amador?

        Pra ser sincero temos dois aspectos aqui. Se for uma criança ou adolescente basta sonhar, arrumar um binóculo ou uma luneta. Para os marmanjos acho que a coisa é diferente. É muito difícil apreciar o universo sem ao menos entender um pouco de sua morfologia. Uma mínima curiosidade e formação em física e matemática é fundamental. Nada que seja muito sofisticado, mas o sujeito tem que entender o que é uma elipse ou o que são os elementos químicos, caso contrário, eu não. consigo nem vislumbrar o que seria visto no céu, exceto as estrelas por si. Aí já seria o universo dos poetas.
O menor telescópio usável, em minha opinião, é um refletor de 12cm de diâmetro. Menos do que isso é muito boa vontade. A alternativa é um binóculo de no mínimo 50mm de abertura. O resto é ler...ler e ler...

         Conte-nos como foi que você descobriu a Supernova?

        A descoberta está descrita em http://users.linkexpress.com.br/cacella incluindo todos os documentos associados.

        "História da Descoberta



        Era uma noite de sexta-feira, já pelas 9 horas da noite, quando resolvi montar o telescópio no terraço. Estava um tanto contemplativo, como gosto de ficar quando estou observando o céu. Com calma fiz o setup do telescópio e do CCD, que demorou cerca de 30 minutos. Trouxe meu computador em uma mesa móvel onde ele é instalado. Um dark frame e um flat foram tirados porque essa noite resolvi utilizar o redutor com foco F2.8, segundo minhas medidas astrométricas. Nesse caso o flat é indispensável por causa do obscurecimento das bordas, causada por diferenças de iluminação (vignetting). Com a minha internet de rádio eu tenho o computador ligado no telescópio e no resto do mundo. Chamei o Guide 7 e procurei pelas coordenadas da distante galáxia UGC 5499 que estava apresentando uma supernova de magnitude 17. Posicionei o telescópio e peguei as imagens. Nem um pouco excitantes, já que se tratava de uma galáxia remota. Mas uma supernova é uma supernova. Uma explosão sem precedentes que ilumina toda uma galáxia e cuja luz percorre os mais distantes confins do universo. Essas estrelas em seu leito de morte, além de serem faróis que iluminam o nosso conhecimento do cosmos, também são a matéria prima que criará novos mundos, talvez novas civilizações como a nossa. Sentei na cadeira e observei o céu acima. Estava magnífico, com Órion o caçador se pondo ao Oeste e com Virgo, a Virgem nascendo a leste. Ao norte já podíamos avistar a Ursa maior e ao sul a notável constelação da Carina, com suas belezas e mistérios. Por alguns momentos pensei qual seria a próxima viagem. estava há tempos tentando superar a imagem do quasar PKS2000-330 que eu havia fotografado meses atrás. De alguma forma não estava disposto a tentar um quasar de magnitude 20. Então observei, bem a minha frente, a constelação do Leão, com seu traçado e desenho tão distinto. Quando comprei o CCD uma das primeiras tentativas que fiz foi fotografar o conjunto de galáxias Hickson 44 no Leão. Fiz isso porque achava o conjunto de uma plástica magnífica, raras vezes vista no céu. Uma galáxia peculiar, chamada Arp 316 ou Hickson 44A ou ainda NGC 3910. Essa galáxia, situada a cerca de 60 milhões de anos-luz da Terra, é uma galáxia espiral peculiar, com forte faixa de absorção. A seu lado a galáxia NGC 3187 (Hickson 44D), uma espiral barrada, talvez o mais belo tipo de galáxia que existe no cosmos. Próximo e a sua direita a bela galáxia elíptica, quase esférica, NGC 3193 (Hickson 44B). E finalizando o grupo a galáxia espiral, vista de cima, NGC 3185 (Hickson 44C). Conjunto de Galáxias Hickson 44 em Leão (não aparece a Hickson 44C)
Resolvi então fotografar de novo o conjunto. Ao aparecer a primeira imagem no ecran, logo notei que havia uma pequena estrela próximo ao núcleo da NGC 3910. Mandei o Guide pegar automaticamente uma imagem do DSS (Survey do Monte Palomar) da região. O problema é que, normalmente, próximo ao núcleo às imagens de galáxias são muito saturadas. A região em que a estrela se encontrava aparecia em branco. Busquei na internet outras imagens e achei a que se encontra acima, do NOAO. Verifiquei então que não havia nenhuma estrela na região observada. Voltei ao Aladin (DSS) e capturei uma imagem mais adequada para usar como comparação. Aqui quero dizer que astronomia, sonhos, desejos, imagens, estética, prazer e música (das esferas...) são uma droga mais poderosa do que qualquer químico inventado pelo homem. O que aprendi é que nada é impossível quando se acredita em algo. Ao observar o céu eu tento sintonizar com a natureza, ouvir a sua música, sentir o profundo da vastidão do universo que nos cerca. Algumas horas antes apontei para o céu ao lado de um sonho, na mesma direção em que a supernova apareceu, e os deuses transformaram aquela vontade, aquela chance infinitesimal, numa explosão tão brilhante, tão fantástica, que o seu brilho vai atravessar o universo muito tempo depois da Terra ter desaparecido e do Sol ter apagado. Posso dizer que, no momento que eu a vi pela primeira vez, sabia ser uma supernova. O que eu não sabia é que era inédita. Como nunca levei o hobby a sério no sentido de fazer descobertas ou contribuir para a ciência, não sabia direito o que fazer nem com quem falar. Entrei na Internet e comuniquei o fato para a União Astronômica Internacional que me solicitou informações complementares. Isso foi às 11 horas da noite de sexta-feira, 8 de março de 2002. Mandei então uma mensagem para a rede VSNET do Japão solicitando confirmação do evento.
Continuei a brincar com a coisa, fazendo imagens de outros objetos. Duas horas depois o astrônomo Dr. Li do Observatório de Lick confirmou a descoberta ao redirecionar o telescópio KAIT. Fiz a astrometria e mandei pra VSNET e pra IAU. Aí vem a pergunta? Onde entra o japonês que aparece na IAUC? Ele entrou de gaiato. De fato foi um erro da União Astronômica Internacional. As observações do ´descobridor´ foram feitas horas depois da confirmação do KAIT, como pode ser visto na própria IAUC. Eles se confundiram e ficou daquele jeito. Mas isso é irrelevante, apenas uma curiosidade.
No dia seguinte à tarde saiu a documentação oficial da IAUC e só então me senti confortável pra fazer a comunicação.         Meu equipamento não é sofisticado, mas também não é simplório. É um telescópio manual (sem GOTO nem PEC) LX-50 SCT 10" da Meade e um CCD da StarlightXpress HX516. Tenho muitos acessórios...off-axis guider, redutor F6 e F3, telescópio de guiagem, ocular astrométrica, muitas lentes e por aí vai."

        Quais os instrumentos e métodos que você utiliza?

Meus métodos são simples. Dependendo do dia eu faço a viagem que me interessa.Pelos planetas ou asteróides...pelas nebulosas e aglomerados ou até as galáxias e os mais distantes quasares. No meu site em http://www.astrosurf.com/cacella você pode ver fotos que eu tirei, inclusive de um quasar com z=3.7 !!! Apesar de usar como hobby eu tenho as condições técnicas para fazer as medidas ou os registros que estão ao alcance de um astrônomo amador, respeitadas as limitações dos equipamentos.



        O que você sentiu no momento da descoberta?

        Eu descobri quando vi pela primeira vez a imagem descendo. Nunca chequei nada antes desse tipo. Mas com essa eu cismei de tacada. E era. A melhor sensação e saber que você está na lista da IAU junto com Kepler, Hubble, Arp, Zwicky, Humason e outros...

        Quais são seus planos para o futuro?

        Continuar do jeito que está. Gostaria de arrumar uma montagem GOTO. Pra mim já seria o suficiente.

        Como você vê a astronomia amadora no Brasil?

        Meia dúzia de gatos pingados. É um escândalo que não possamos importar os equipamentos com isenção de impostos. Só demonstra a incompetência e incapacidade de distinguirmos o que é importante do que não é. Enquanto isso inutilidades como garrafas de Chivas e carros importados pululam pelas ruas.

         O que se pode esperar dos grupos de astronomia brasileiros?

        Sei que o pessoal não vai gostar, mas não acredito em grupos de astronomia. Acho que seria melhor uma espécie de grupo de divulgação da astronomia. Eu nunca vi uma reunião de grupos de astronomia que não tratasse de coisas superficiais 95% do tempo, exceto quando você reune uma meia dúzia de pessoas que têm condições materiais e técnicas para discutir coisas interessantes. Os grupos são legais para mostrar coisas simples ao publico (planetas, cometas, constelações). Daí eu separo a coisa em duas. Existem os grupos para informação aos leigos e algumas pessoas com quem podemos passar a noite observando coisas mais complexas, com o tempo e procedimentos necessários. Uma coisa é o sujeito olhar uma galáxia e dizer : "Que fantástico !!! Qual a distância da Terra ? Será que tem vida por lá?" outra é esperar vinte minutos enquanto as imagens se formam e ler detalhes do objeto como a sua natureza de expansão, de brilho, de catálogos, checar no DSS e por ai vai. Não dá pra fazer as duas coisas ao mesmo tempo.


Para conhecer mais sobre o Paulo e seu trabalho em astronomia visite:

www.astrosurf.com/cacella




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